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Nunca são as mesmas folhas, mas é sempre o outono…

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As mãos sacodem as moedas imantando cíclicos de vida e de pensamento. Uma pergunta é formalmente proposta. O acaso recebe uma imensa importância. Se estamos falando de sincronicidade por que não ousar um diálogo com um antigo livro que se propõe como algo vivo?, indaga C. G. Jung.

Diante de fatos desordenados e desiguais, pedaços de cobre lançados repetidamente procuram um dos 4096 conselhos possíveis. É preciso voltar-se sobre si mesmo. A suposta resposta do universo ao inquiridor deve se ajusta ao padrão particular do momento. O fato microfísico inclui o observador tanto quanto a realidade subjacente ao I Ching abrange a subjetividade, isto é, as condições psíquicas dentro da totalidade da situação momentânea, reforça Jung.

Os julgamentos vestem as imagens com palavras, ecoam os velhos mistérios do oriente. É necessário inventar um ritmo para compor com a sofisticada mecânica do cosmo em seu fluir contínuo, onipresente, absoluto. A teoria de tudo, alguns intuiriam. Princípio Uno no interior do múltiplo. Bem, eu… eu continuo atenta ao resto que escapa às interpretação dos símbolos compilados por um prisioneiro.

O grande poema circular é dividido em 64 estrofes: figuras arquetípicas formadas a partir de linhas inteiras ou interrompidas. O hexagrama encontrado depois de muito embaralhamento se desvela e avisa sobre ações oportunas ao atual estado de mutação da criação.

“Devemos examinar o que estamos procurando nutrir, e pelo exercício de nossos pensamentos procurar o alimento adequado”.

Não há nada mais a temer…

 

“As incongruências, os absurdos, a estupidez, a selvageria, o imponderável, isso tudo é o que nos rodeia, e ainda assim temos de sobreviver e continuar como se estivéssemos no melhor dos mundos” (Hilda Hilst)

 

Um escritor comete suicídio.

Um cientista morre.

Uma vereadora é assassinada.

 

O medo ameaça trancafiar desejos no escuro rumoroso do passado .

Diante do agora que compõem a pintura da página fica difícil avançar. Chega a faltar ar dentro do corpo.

O discurso se fala de dentro.

Quem não ficou besta não entendeu.

No caderninho de Hilda…

caderno2

“Fomos criticados por invocar muito freqüentemente literatos.
Mas a única questão, quando se escreve, é saber com que outra máquina a
máquina literária pode estar ligada, e deve ser ligada, para funcionar. Kleist e
uma louca máquina de guerra, Kafka e uma máquina burocrática inaudita…
(e se nos tornássemos animal ou vegetal por literatura, o que não quer
certamente dizer literariamente? Não seria primeiramente pela voz que
alguém se torna animal?) A literatura é um agenciamento, ela nada tem a ver
com ideologia, e, de resto, não existe nem nunca existiu ideologia.”

(Gilles Deleuze e Félix Guattari in Mil Platôs)